Escrito por Revista Época - 28/02/07 15:56:25
Assim não dá!Dá uma raiva do IBGE. O órgão ligado ao Ministério do Planejamento anunciou hoje que o crescimento da economia brasileira em 2006 foi de 2,9%. Não é possível. Só pode estar errado. A China experimentou 10,7%. A Rússia vai ficar com 6,8%. E a Índia com mais de 9%. Desse jeito só será possível tirar uma casquinha ou “onda”, como está na moda, com o Haiti. Como o país da América Central conseguiu aumento só de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB)?
O IBGE terá sua segunda chance para recuperar o moral brasileiro. Em um mês vai apresentar um novo número do PIB, fruto de mudanças na contabilidade. Especialistas dizem que a fórmula a ser adotada é melhor que a atual. Isso porque medirá com mais propriedade a participação na economia de importantes setores, tais como a construção civil, a indústria eletrônica e o consumo do governo. Puxa um zero daqui, manda outro zero para ali e eis que teremos o tão propagado espetáculo do crescimento.
Esqueça. O esforço dos técnicos do IBGE deve até ser louvado. Eles querem aperfeiçoar a matemática do PIB para aproximá-la da realidade econômica do País. Os problemas do fraquíssimo desempenho brasileiro não se resolverão com a calculadora. As estradas e os portos são bons? É fácil abrir uma empresa? Os impostos são condizentes? Os estrangeiros estão confiantes de tal forma a aumentar investimentos produtivos? O governo desperdiça dinheiro? Diante de tantas negativas torna-se mais fácil entender os 2,9%. Cresce também a desconfiança quanto à promessa de crescimento de 5% para este ano.
Graças à recuperação da atividade agropecuária, a expansão da extração mineral e do setor de serviços o vexame brasileiro não foi ainda maior em 2006. O governo anunciou com pompas o Programa de Aceleração Econômica (PAC) na tentativa de contornar o tímido crescimento econômico. Deposita no plano a esperança de obter estatísticas mais infladas. Mas o sucesso depende da boa gestão da máquina pública e do interesse dos investidores privados.
Os anos de extrema bonança econômica aparentemente passaram. Por não ter feito os deveres de casa, entre elas as reformas tributária, previdenciária e trabalhista, o Brasil sentou em uma das últimas cadeiras do bonde do crescimento. Agora vem um susto da China: uma desaceleração da economia lá pode interferir na daqui. Depois virão os números miúdos. Dá uma raiva do IBGE.
(Murillo Ramos)